NTE e a Era dos Jogos que Fazem Tudo, Mas Nada Bem
A indústria de games tem vivido uma transformação significativa nos últimos anos, especialmente com a introdução de elementos típicos de RPG em uma variedade de gêneros. Aproximadamente 15 anos atrás, tornou-se comum que até mesmo os jogos de ação mais simples incorporassem sistemas de experiência, níveis e árvores de habilidades. Isso começou a ganhar força com o sucesso de jogos como Call of Duty: Modern Warfare, que atraiu muitos jogadores com sua mecânica ágil e uma estética inovadora para o gênero de tiro, além de proporcionar uma constante sensação de recompensa ao jogar no modo multiplayer.
Quando comparado ao clássico GoldenEye, que oferecia diversão pura pelo simples ato de jogar, Call of Duty trouxe uma nova dinâmica: a sensação de progresso era inflada pelo crescimento de barras de experiência associadas a cada ação na partida. Cada arma e cada conta tinha seu próprio nível, incentivando os jogadores a continuarem jogando para ver barras e números crescerem, criando uma esteira interminável de recompensas. Esse foi o primeiro passo em uma corrida armamentista na indústria, onde as empresas tentavam desesperadamente manter o interesse dos jogadores, utilizando cada vez mais métodos para maximizarem o tempo de jogatina.
Hoje em dia, essa tendência se intensificou com a ascensão dos jogos como serviço, resultando em títulos que parecem querer abarcar tudo, mas acabam não se destacando em nada. Um exemplo que exemplifica essa problemática é Ananta, um jogo que prometeu a liberdade de fazer absolutamente tudo, parecido com GTA, mas cuja execução deixou a desejar, fazendo com que a experiência parecesse superficial e frustrante.
Um caso recente que exemplifica essa filosofia de “fazer de tudo, mas nada bem” é o jogo NTE: Neverness to Everest, um gacha que vem recebendo atenção no cenário atual. Embora não seja um jogo ruim e, em certos momentos, até mesmo divertido, ele claramente busca fazer muitas coisas ao mesmo tempo sem se aprofundar em nenhuma delas. Os jogadores que já experimentaram títulos como Genshin Impact ou Honkai vão perceber que NTE segue uma fórmula familiar: um protagonista que surge misteriosamente em meio a um conflito e que deve descobrir sua memória perdida.
Um detalhe interessante de NTE é sua estética que combina um mundo contemporâneo com elementos fantásticos, apresentando um universo semelhante ao da Fundação SCP, onde você é recrutado para um departamento governamental que investiga fenômenos estranhos. Contudo, sua jogabilidade e mecânicas não evoluíram como se esperaria desde o lançamento de Genshin há seis anos. A necessidade de apresentar mais conteúdo se reflete na vasta gama de atividades opcionais disponíveis ao explorar a cidade do jogo, mas poucas delas são realmente envolventes.
O sistema de combate, que poderia ser um ponto forte para manter o interesse dos jogadores, se revela bastante básico e superficial. Embora haja mecânicas de progressão, elas são tão simples que não incentivam um engajamento maior. Além disso, o sistema de direção dos veículos é mal projetado, e as diversas atividades, como gerenciar um café ou construir casas, parecem estar mais voltadas para a quantidade do que para a qualidade, muitas vezes se tornando entediantes.
A simplicidade de elementos que poderiam ter uma profundidade maior pode refletir uma estratégia intencional dos desenvolvedores. Eles podem estar tentando garantir que o jogador casual não se sinta intimidado a ponto de abandonar o jogo. Assim, entregam uma experiência mais acessível, mas que, em última análise, peca pela falta de desafio e envolvimento. Por outro lado, a atenção aos detalhes na cidade e a construção de um ambiente vivido são aspectos positivos que demonstram um cuidado no desenvolvimento.
Além disso, a monetização do jogo se mostra menos agressiva, não utilizando sistemas predatórios típicos de muitos jogos gacha. NTE adota um formato onde o jogador é garantido o personagem desejado e onde as microtransações ficam mais restritas a skins e personalizações. Isso pode ser um alívio para aqueles que estão cansados de sistemas de recompensa cada vez mais complicados, embora a fórmula ainda possa parecer familiar.
Em resumo, NTE: Neverness to Everest é um título que entrega uma experiência divertida, mesmo que não necessariamente inovadora. Ele é um reflexo da tendência atual na indústria dos jogos, onde a quantidade muitas vezes supera a qualidade. Para aqueles que apreciam a estética de anime e uma narrativa leve, pode ser um jogo entretenedor. Contudo, muitos jogadores podem acabar desejando que ele tivesse se concentrado em fazer algumas coisas realmente bem, em vez de diluir sua proposta com uma variedade de mecânicas superficiais.
































