É Lógico que Mixtape é um Videogame
Recentemente, a discussão em torno do jogo Mixtape ganhou destaque nas redes sociais, especialmente considerando que muitos aproveitaram a polêmica para discutir o que realmente define um videogame. Em uma era em que a objetividade parece ser o foco principal nas avaliações de games, muitos se perguntam se jogos sem gameplay tradicional podem ser considerados verdadeiros jogos.
Mixtape surgiu como um título inofensivo, que um mês antes da polêmica, 99% do público nem sabia que existia. Agora, um mês depois, ele é visto como o grande vilão da indústria. Essa mudança brusca de perspectiva é interessante e revela um fenômeno orgânico, muito mais ligado a debates culturais do que a características intrínsecas do jogo.
Embora muitos críticos tentem desmerecer Mixtape, afirmando que ele não apresenta um estado de fracasso típico dos jogos clássicos — como a famosa tela de game over —, vale ressaltar que isso é uma visão reducionista. Videogames são experiências que vão além do simples sucesso ou fracasso. A verdadeira questão é como Mixtape faz o jogador se sentir.
Mixtape narra a história do último dia de uma adolescente em sua cidade natal, onde as escolhas do jogador têm peso emocional. Durante o jogo, o jogador pode explorar o ambiente da protagonista, interagindo com objetos que carregam memórias e sentimentos. Essa possibilidade de agência, de escolher como vivenciar aqueles momentos, é o que torna a experiência única e significativa, algo que a mídia interativa consegue proporcionar de maneira inovadora.
Muitos jogos, como What Remains of Edith Finch e The House in Fata Morgana, oferecem experiências semelhantes em que a exploração e a narrativa são moldadas pelas interações do jogador, mesmo que não existam mecânicas tradicionais de “jogar”. Assim, a ausência de uma tela de game over não diminui a profundidade ou o valor da experiência apresentada pelos jogos.
A ideia de que um videogame deve obrigatoriamente desafiar o jogador e incluir falhas e recompensas objetivas é questionável. Existem obras que, embora não tenham a forma clássica de um jogo, oferecem narrativas ricas e envolventes que merecem ser reconhecidas como videogames. Mixtape, portanto, deve ser visto como uma experiência que combina elementos de jogo e narrativa, criando um espaço único para exploração emocional.
Desmerecer jogos que não seguem os padrões tradicionais pode ser uma tendência limitante e, em última análise, prejudicial ao crescimento do hobby. O foco deve ser na experiência e na conexão que se cria entre o jogador e a narrativa, algo que Mixtape faz de maneira brilhante.
A popularidade temporária e a discussão em torno da avaliação de jogos também destacam um ponto importante: as notas de críticos e o que elas representam. É comum ver títulos que recebem notas divergentes, dependendo do critério de avaliação. Portanto, apreciar um jogo deve ir além das notas, centrando-se na experiência que ele proporciona.
Mixtape é um exemplo claro de como as definições de videogames estão sendo constantemente desafiadas. Ao permitir uma experiência tão rica e emocional, ele se estabelece como um jogo verdadeiro, mesmo sem as características que muitos consideram essenciais. É um chamado para que se repense o que realmente significa ser um videogame na era moderna.





































